A estabilidade do fornecimento elétrico é uma das condicionantes mais críticas para a continuidade operacional de qualquer planta industrial. Entre as ameaças que colocam essa estabilidade em risco, os surtos elétricos figuram como uma das mais frequentes e, muitas vezes, das menos gerenciadas de forma adequada.
Ao contrário do que se pode imaginar, surtos elétricos não são eventos raros nem restritos a instalações próximas a descargas atmosféricas. Eles ocorrem com regularidade em ambientes industriais e têm potencial para causar desde a degradação silenciosa de componentes eletrônicos até falhas súbitas em equipamentos críticos, paradas de produção e riscos de incêndio.
Este artigo explica o que é um surto elétrico, como ele se origina, por que o ambiente industrial é particularmente vulnerável e quais critérios devem orientar a escolha e especificação de um Dispositivo de Proteção contra Surtos (DPS).
O que é um surto elétrico e como ele se origina
Um surto elétrico, tecnicamente denominado sobretensão transitória, é um aumento abrupto e de curta duração na tensão da rede elétrica. Esse pico pode durar microssegundos ou milissegundos, mas a energia envolvida é suficiente para causar danos severos a equipamentos elétricos e eletrônicos.
As origens dos surtos elétricos são variadas e nem sempre óbvias:
Descargas atmosféricas diretas e indiretas
Mesmo sem atingir diretamente a instalação, um raio próximo pode induzir sobretensões em linhas de distribuição, cabos de dados e sistemas de automação. A descarga induzida é, na prática, a causa mais comum de danos elétricos por raio em ambientes industriais.
Manobras na rede elétrica
Religamentos automáticos da concessionária, chaveamento de bancos de capacitores e transferências de carga geram transitórios que se propagam pela rede até o ponto de consumo.
Acionamento de cargas internas
A partida e o desligamento de motores de alta potência, compressores, transformadores e equipamentos de solda produzem distúrbios locais na rede interna da planta, afetando equipamentos conectados ao mesmo barramento. Essa categoria é frequentemente subestimada: em plantas com ciclos de acionamento frequentes, a própria operação normal da planta gera um ambiente de tensão instável que degrada componentes ao longo do tempo.
Por que o ambiente industrial é especialmente vulnerável
Em aplicações residenciais e comerciais leves, os surtos elétricos afetam principalmente eletrodomésticos e equipamentos de consumo. No ambiente industrial, o cenário é mais crítico por dois motivos: a complexidade dos equipamentos envolvidos e o impacto operacional de qualquer falha.
Os sistemas mais vulneráveis a sobretensões transitórias em ambientes industriais são justamente os que concentram maior valor e criticidade:
- CLPs (Controladores Lógicos Programáveis): os módulos de entrada e saída operam em faixas de tensão de sinal muito baixas. Um surto que chega à rede de 24 Vcc de um painel de automação pode destruir módulos inteiros sem acionar nenhuma proteção convencional.
- Inversores de frequência: dispositivos com circuitos de potência baseados em IGBTs são extremamente sensíveis a picos de tensão. Falhas de IGBT por sobretensão são uma das causas mais comuns de manutenção corretiva em inversores industriais.
- Sistemas de supervisão (SCADA, IHMs): a eletrônica embarcada nesses equipamentos é projetada para operar em faixas estritas de tensão. Mesmo surtos de baixa energia podem comprometer cartões eletrônicos de custo elevado.
- Instrumentação e sensores: transmissores de processo, encoders, termopares e outros instrumentos têm circuitos analógicos sensíveis a distúrbios transitórios.
“Esses picos podem afetar principalmente o funcionamento de circuitos eletrônicos, como módulos de controle CLPs, inversores de frequência, entre outros. Na indústria, isso pode levar a danos em maquinários, falhas em sistemas de controle e interrupções na produção.”
O impacto vai além do custo de substituição do equipamento: inclui tempo de parada, perda de produção, custo de mão de obra para diagnóstico e reparo e, em casos extremos, risco de incêndio por sobrecarga elétrica em pontos fragilizados da instalação.
Como o DPS funciona na prática
O Dispositivo de Proteção contra Surtos (DPS) atua como uma válvula de alívio elétrico. Em condições normais, ele permanece “invisível” para o circuito. Quando detecta uma sobretensão, conduz a energia excedente para o sistema de aterramento antes que ela alcance os equipamentos.
O componente central de um DPS é o varistor (MOV – Metal Oxide Varistor), um componente cuja resistência elétrica varia em função da tensão aplicada. Em tensões normais, o varistor apresenta alta impedância e não interfere no circuito. Quando a tensão excede o limiar de proteção, sua resistência cai abruptamente, criando um caminho de baixa impedância para a corrente de surto ser desviada ao aterramento.
A velocidade de resposta é determinante: DPS de qualidade industrial respondem em nanosegundos, o que é essencial para conter transitórios de origem atmosférica, que têm frentes de onda extremamente rápidas.
Para que o DPS funcione corretamente, é indispensável que a instalação disponha de um sistema de aterramento adequado e de baixa impedância. Um DPS instalado sem aterramento eficiente não oferece proteção real, desvia a corrente de surto para um caminho que não a dissipa corretamente.
Classes de proteção do DPS: como diferenciar e quando aplicar cada uma
A norma ABNT NBR IEC 61643-11 classifica os DPS em três categorias, definidas pela localização na instalação e pelo nível de energia que devem suportar.
Classe I (Tipo 1)
Instalado na entrada da subestação ou no ponto de chegada da distribuição, próximo ao SPDA (Sistema de Proteção contra Descargas Atmosféricas). É dimensionado para absorver parte da energia de uma descarga atmosférica direta, com correntes de ensaio na ordem de dezenas de kA em forma de onda 10/350 µs. Indicado para edificações com SPDA instalado ou em locais de alta incidência de raios.
Classe II (Tipo 2)
Instalado nos quadros de distribuição, próximo às cargas a proteger. Lida com sobretensões induzidas e com o que não foi absorvido pelo DPS de Classe I. Utiliza correntes de ensaio em forma de onda 8/20 µs. É o tipo mais comum em instalações industriais quando não há SPDA.
Classe III (Tipo 3)
Instalado diretamente junto ao equipamento a proteger, como tomadas de proteção ou DPS embutidos em calhas. Atua como uma camada final de proteção, complementando as classes anteriores.
Classe I+II (combinada)
Reúne as funções das duas primeiras classes em um único dispositivo. Simplifica a instalação e é indicada quando não há espaço para dois dispositivos em cascata ou quando a aplicação exige resposta a ambos os tipos de sobretensão.
A escolha da classe incorreta é um dos erros mais frequentes na especificação de DPS. Instalar apenas um DPS de Classe III sem proteção anterior, por exemplo, expõe o equipamento a surtos de maior energia para os quais o dispositivo não está dimensionado.
Critérios técnicos para especificação de DPS industrial
Além da classe de proteção, outros parâmetros técnicos devem ser avaliados na especificação:
- Tensão máxima de operação contínua (Uc): deve ser igual ou superior à tensão nominal da instalação. Subdimensionar esse valor causa degradação acelerada e falha prematura do varistor.
- Corrente de descarga nominal (In) e máxima (Imax): definem a capacidade do DPS de absorver surtos repetidos sem degradação (In) e a corrente máxima que suporta sem falha catastrófica (Imax). Ambientes com alta incidência de raios exigem valores maiores.
- Nível de proteção (Up): é a tensão residual que o DPS permite passar até os equipamentos durante um surto. Quanto menor o Up, mais eficiente é a proteção. Esse valor deve ser compatível com a tensão suportável dos equipamentos a proteger.
- Indicador de status e contato auxiliar: em instalações críticas, é importante que o DPS sinalize visualmente quando um módulo varistor foi consumido e, se necessário, envie sinal ao sistema de supervisão. Alguns modelos oferecem contatos auxiliares para integração com CLP ou SCADA.
- Coordenação entre DPS em cascata: quando há dois ou mais DPS instalados em sequência, é necessário verificar a coordenação entre eles. Em alguns casos, é necessário manter distância mínima de cabo entre os dispositivos ou utilizar indutores de desacoplamento.
DPS 5SD7 Siemens: aplicação industrial com proteção em múltiplas configurações
A linha DPS 5SD7 da Siemens foi desenvolvida para aplicações industriais, comerciais e de infraestrutura, com foco em robustez, confiabilidade e instalação em quadros elétricos padrão DIN. A linha contempla diferentes configurações de polos e classes de proteção, permitindo adequação a diferentes topologias de instalação:
- DPS 5SD7 Monopolar Classe II — 20 a 40 kA / 230 Vca: para quadros monofásicos ou proteção por fase em sistemas trifásicos TN-S. Adequado para o quadro de distribuição secundário próximo às cargas críticas.
- DPS 5SD7 Monopolar Classe II com sinalização — 20 a 40 kA: versão com indicador de status integrado, indicada para painéis que exigem monitoramento do estado do dispositivo.
- DPS 5SD7 Tripolar Classe II — 40 kA / 240 Vca: para sistemas trifásicos sem neutro distribuído (IT ou TT). Ocupa menos espaço no painel em relação a três dispositivos monopolares.
- DPS 5SD7 Tetrapolar Classe II — 25 kA / 415 Vca: para sistemas TN-C-S ou TN-S com neutro, cobrindo as quatro linhas (3F+N) em uma única instalação.
- DPS 5SD7 Tetrapolar Classe I — 25 a 50 kA: para instalações com SPDA, onde é necessário absorver frações da energia de descargas atmosféricas diretas na entrada da instalação.
- DPS 5SD7 Tetrapolar Classe II com contato auxiliar — 40 kA / 350 Vca: versão com contato NA/NF para integração com sistemas de supervisão ou alarme, recomendada para instalações críticas onde a falha do DPS precisa gerar ação imediata.
A seleção entre as versões deve considerar a topologia do sistema de distribuição, a presença ou não de SPDA, o nível de corrente de surto esperado para a localidade e a necessidade de sinalização remota.
Erros comuns na especificação de DPS industrial
- Instalar apenas DPS de Classe III: sem proteção de upstream (Classe I ou II), os dispositivos de ponto de uso são submetidos a energias para as quais não foram dimensionados, resultando em falha ou proteção inadequada.
- Ignorar o aterramento: um DPS sem aterramento eficiente é inoperante. Antes de especificar o dispositivo, é necessário verificar a resistência de terra da instalação.
- Subdimensionar a corrente de descarga: instalar um DPS de 20 kA em região com alta incidência de raios ou em ponto de chegada de linha aérea é insuficiente. O dimensionamento deve considerar a exposição real da instalação.
- Não prever substituição após absorção de surto: varistores têm capacidade de absorção acumulada. Após surtos intensos ou repetidos, o componente se degrada. DPS sem indicador de status podem permanecer instalados sem qualquer proteção real.
- Não coordenar os dispositivos em cascata: dois DPS instalados em sequência sem o devido desacoplamento podem interferir entre si e reduzir a efetividade da proteção combinada.
Como tomar uma decisão mais segura na especificação
A proteção contra surtos em instalações industriais não é uma solução única e padronizada. Ela depende de variáveis específicas de cada planta: localização geográfica, exposição a raios, topologia da rede interna, perfil das cargas instaladas, presença de SPDA e criticidade dos equipamentos a proteger.
Uma especificação bem feita reduz o risco de falha dos equipamentos mais caros e críticos da instalação, diminui o custo de manutenção corretiva e aumenta a disponibilidade do processo produtivo. O investimento em proteção adequada é, na maioria dos casos, uma fração do custo de reparo ou substituição de um inversor de frequência ou módulo de CLP danificado por surto.
Se você está avaliando a proteção de uma nova instalação ou revisando um projeto existente, vale envolver suporte técnico especializado para validar a escolha dos dispositivos e confirmar a adequação à topologia e às normas aplicáveis.
Precisa de suporte técnico na especificação de DPS industriais? Fale com a equipe da Reymaster.


